Existe a expressão "It's not the destiny, it's the journey" (that matters)
Ela é válida para a vida, para um relacionamento, para uma profissão e com certeza é válida para o turismo.
O "Turismo Destino" é caracterizado por uma base fixa durante boa parte ou todo o período da estadia. Desta base fixa podem existir passeios diários, tipo bate-volta, para se conhecer os arredores, mas atrativos mais distantes do que 100 km no núcleo da viagem costumam ser ignorados. Esta é a forma predominante de turismo no Brasil. O "Turismo Destino" necessita de um pólo receptor, como um aeroporto próximo e estrutura hoteleira de maior porte para concentrar o fluxo massificado.
O "Turismo Destino" forma o que eu chamo de "Margaridas Turísticas" que são os núcleos receptivos estruturados e seus vários passeios em laço ao redor. E o Brasil tem poucas "Margaridas Turísticas".
Operamos muito, poucos destinos. O ideal seria operar pouco, muitos destinos. Assim evitaríamos a deterioração do turismo de massa. Assim distribuiríamos riqueza. Assim levaríamos o turismo a todos os cantos do Brasil.
E o que fazer com toda a riqueza Brasileira que está entre estes pólos receptivos, mas distantes demais para serem parte das pétalas, alcançadas em passeios de um dia? No Brasil de hoje, quem está a mais de 200 km de um pólo receptivo não existe para o Turismo.
O "Turismo Trajeto" por definição não tem limites, nem de tempo nem de abrangência. É ilimitado. Ao longo de um mesmo período beneficiará muito mais pessoas e mostrará muito mais das regiões visitadas. O "Turismo Trajeto" une diversos atrativos ao longo de um roteiro temático ou até multi-temático.
O tema "Estrada Real X Cidades Históricas" mostra a diferença de conceito. Quando alguém fala que vai para as cidades históricas pensa nos moldes do "Turismo Destino" e sua viagem ficará restrita a Ouro Preto, Mariana, Congonhas e Tiradentes. Já a Estrada Real espalha-se de Diamantina até Parati. A Estrada Real é tipicamente "Turismo Trajeto". A Estrada Real beneficiará mais de uma centena de localidades e milhões de seus habitantes. A inclusão social ao longo deste trajeto é muito maior do que se limitássemos o fluxo somente às 4 ou 5 cidades dos roteiros clássicos.
A Estrada Real, conceito turístico, é uma iniciativa da FIEMG através do Instituto Estrada Real, com o apoio do Governo de Minas. Em Minas Gerais os benefícios do "Turismo Trajeto" já são claros. Eles sabem o quanto dá trabalho implementar uma nova idéia. Eles também sabem que o retorno para o futuro vale qualquer esforço presente.
Outra diferença está nos players envolvidos. No "Turismo Destino", de massa por definição, os grandes players dominam, dificultando novos entrantes. São grandes hotéis, com grandes empresas de traslados, com grandes operadoras, tudo preparado para a larga escala.
O "Turismo Trajeto", não massificado por definição, por espalhar-se em área muito maior os seus visitantes, beneficia todos os players do mercado. Os grandes continuam grandes e operantes, mas abre-se a possibilidade para os realmente pequenos entrarem no mercado.
Como exemplo está aquele dono de um carro de boi. Orgulhoso de sua cultura rural, este empresário com o capital de um carro de boi começa a levar turistas em passeios pelas montanhas em seu carro de boi. Valorizando sua cultura e fazendo o que sabe, será parte do trade turístico. Imagine que esta empresinha pode crescer e oferecer outros produtos. E se você acha estranho andar de carro de boi, o que você acha de andar de camelo e elefante? Cuidado com a armadilha da auto-estima.
No "Turismo Trajeto", em uma semana você conhece um canto, em um mês você já domina uma região e em um ano um continente. E se você acha que ninguém tem mais do que uma semana de férias para viajar, repense seus paradigmas e visite o site www.gapyear.com e veja que existe um mundo voltado às pessoas com tempo sobrando.
O "Turismo Trajeto" pode ser feito de carro, barco, trem, bicicleta, cavalo e qualquer outro meio de transporte que o tema da viagem pedir. Até a pé.
Um ótimo exemplo de "Turismo Trajeto" que existe há séculos, são os caminhos de Santiago de Compostela. Lá definitivamente a "journey" é muito mais importante do que o "destiny". E lá a palavra "journey" toma o seu sentido completo.